Meus colegas de trabalho e eu estamos na mansão do meu chefe, onde
ele e a mulher nos oferecem um banquete. Parece que o lugar dele (o do
chefe) está ameaçado na empresa (às vezes o chefe também tem
chefes...), e o jantar é a última oportunidade dele para mostrar-se
amistoso e generoso com a equipe, onde tem sérios problemas de
relacionamento com vários colaboradores.
O banquete, portanto, é uma cartada final para ele ficar no emprego.
O chefe está sentado na cabeceira, com a mulher à direita. As
demais pessoas se espalham pelas quase vinte cadeiras. Na outra
cabeceira, euzinho. O serviço começa, as pessoas interrompem a
conversa, o único barulho do lugar passa a ser o de talheres e copos,
em suave atrito com o mundo.
"Mas que vinho de merda!", diz uma colega minha. "É claro que você
ia servir esse vinho de merda pra gente, seu miserável! Aposto que tem
coisa bem melhor na tua adega, mas você acha que a gente merece isso.
Tem mesmo é que ser demitido". Minha colega joga o guardanapo sobre a
mesa e sai. Depois de um espanto geral, a atitude ganha adesões, e
todos se mandam. Meu chefe e a mulher estão pálidos. "É. Agora já
era...", ele diz à esposa, dando-lhe um beijinho na testa e saindo com
ela da sala de jantar, de mãos dadas.
Estou sozinho na mesa. "Dane-se!", eu penso, enquanto vou enchendo
novamente o meu prato, que delícia de comida.